terça-feira, 27 de setembro de 2011

Poema- Fagulha improvável



Fagulha improvável


Amada a palavra muda
Muito difícil na ida
Porque arrebata no vazio
Uma idéia aos berros ainda.

Palavra colhe estéril e inunda
Precipícios quando quer.
É divina e traiçoeira
Porque aglutina princípios
Para os maiores espantos.

Sem papas na tinta
Com letras marcadas em digitais
De espera,para que o destino
Acometa paz como quem ensine
posse aos filhos.

Sem deserto a palavra crava
Ventos em alicerces frágeis.
Ela marca a pele com dúvidas
E adere preces próprias
Com verdades dúbias.

Palavra muda,palavra sempre.
Quem persegue uma ilha entre sons
É isolado.Quem se despede
Do concreto até o incerto
Como desdém da fagulha improvável
Nas letras será quem busca nas palavras

O motivo para um espelho correto por fim
acha um tedioso refém.

RIO,06 DE JUNHO DE 2010.

Poema- Descoberta

Descoberta

Lamba teus males
Com anseios de marés.
Para relvas em campos
De verde musgo és tu .
Não bastam rodapés
De qualquer escritura
Vesgo olhar e alma sã
Inscrevem na carne
tua mulher segura
para o compromisso
ventilado em desarme.
Barca dos pés descalços
Nefastos ,sem bússola
Abocanham brisas...
A prece convida quieta
nas  tempestades
-    entre divisas   -
Para uma magnífica
D E S C O B E R T A!!!

RIO,17 DE JANEIRO DE 2010.

ANDRÉ NÓBREGA

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Poema- Fôlego para atravessar tsunamis

Fôlego para atravessar tsunamis

Sabes do nosso ponto de partida?
Você funciona sendo trilha
o ardor delira a tendo como sócio...
Sabes estar acolhida pelo sonho
Da mais pulsante via?Daí ,qualquer
Vento requer uma paz , um flagrante
Capaz de esconder o que me inspira
à prazo o teu peso. Somos sombras.
Seremos mais quando os poemas
Celebrarão contágio e dos terrenos
Improváveis os termos da coragem
Serão guia. Fria é a contagem dos
tempos.O templo de oração que
anestesia miragens.Diante da poesia
somos todos capazes.Sem reclames
verdades totais ou pazes com a fossa.
Mas , moça ,a saudade faz traçar desertos
E desenhos. O rabisco pelo qual se defina
Força aguarda pelos seus traços. Assim
Uma página se verte em lágrima,adverte
Uma máxima que é infame...
Quando a distância convoca pressa o calor
Engessa a vida. Dá fome não vê-la, uma
Besteira de náufrago o meu encanto.Mas quer
Saber?Tenho a bóia sincera da ousadia aqui.
Sem prever,estou pronto para alegrias fraternas
A disposição que dome as suas calmarias
E atravesse os seus tsunamis.

RIO, 14 DE SETEMBRO DE 2011.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Poema- O tempo não considera boas intenções

O tempo não considera boas intenções

Não chame de azar o impulso sincero a rondar
O teu momento.Se é justo ou não,o motivo da tristeza
a quem acolheu o instante da perda como o aleitamento
nas redondezas do teu flagelo.Será eterno o teu reclame
se aceitares o sofrimento com culpa e se acanhares ao evitar
risos açoitando pena em você.Lembre-se que se pregares
a culpa feito um martelo diário,o crediário rancoroso aumenta.
Bote nessa dispensa uma taxa mínima. Uma brisa de riscos
ao alcance do gozo. Senão, o passo intima ao corpo a brasa
de uma censura . A tua felicidade assina com o acaso
implorando migalhas de prazer.Das tralhas traga a sina
inevitável ,pois ela será sempre minha e tua...
As idades passam , o tempo não compactua atrasos
sucessivos.Assim , os esforços empenhado nas ações
serão segundos seguidos pela cobrança contínua.
Isso ,definha o alimento rico, o tesouro nascido do gérmen
cujo fio valente nos mantém.Dê sustento ao estouro do ouro
alimentado pelas lágrimas. Quando tudo apela gelo, o vento
espera espalhar sonho adormecido. São preocupantes as idas
E vindas , a alegria se deformar em desespero .Dessa guerra
você anuncia haver partido a esperança ,engessará o zelo próprio.
O tempo não considera boas intenções. Então lhe direi o óbvio;
Respeito o teu sofrimento. A razão para reclamar é infinita
tudo complica quando o principal é transformar-se por dentro.


RIO, 24 DE AGOSTO DE 2011.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Poema- O seu mundo hábil para o riso


O seu mundo hábil para o riso

Quem sabe ontem a palavra dada
Em nossa conversa fosse escudo.
Desculpas de quem atravessa a
Timidez trilhada em dúvidas fáceis.
Uma notícia desse seu mundo
Hábil para o riso .Pois, ontem você
Me fez sentir preguiça do obscuro .
Hoje deixo que a saudade e a dúvida
Se confrontem . Há a embriaguez de
Tanta vida e me comanda o assunto
Da pétala , essa justiça bela e tardia
Preenchida com sua sensibilidade.
Agora , a vontade desperta , o sol impõe
à minha janela uma premissa de glória.
Sendo o dia de sol ou de chuva o meu
Corpo só considera a vontade que premia
A chance clara de vitória.

RIO , 19 DE AGOSTO DE 2011.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Crônica - A bactéria

 Quem cala nem sempre consente. Aquela pessoa capaz de pensar bem e planejar os seus passos , age com mais consistência. Eu tenho uma natureza reativa , muitas vezes condicionada ao exagero.Fazer uso dessa força foi valioso para suportar a carga de exercícios exigida pela fisioterapia. Sem me dar conta , eu adquiri um rigor excessivo , bom para a reabilitação e péssimo para o resto.

 Hoje eu sei que grande parte da minha vontade em me recuperar veio da gratuidade do fato que ocasionou a minha lesão.A partir de uma operação de apendicite mal feita,além de uma inteiração medicamentosa provocada por um antidepressivo que tomava e um remédio pós operatório, a minha imunidade baixou radicalmente. Eu fui a vítima ideal para uma bactéria danosa fazer a festa com o meu organismo. Em menos de duas semanas após a operação de apendicite o meu corpo já não se movia e a minha voz foi para o espaço. A chance de tais incidentes se alinharem ocorre entre 1 a cada 100.000 pessoas, conforme o neurologista que me assisti revelou.

 Uma vez iniciado o processo de fisioterapia, eu incorporei todo o ódio acumulado diante da situação e me lancei em busca do meu objetivo; voltar a andar. Se a finalidade é válida , a maneira encontrada para demonstrar isso, não. A raiva foi importante para sedimentar a carga de exercícios com a qual eu precisava ser submetido.Bastava acabar a sessão de fisioterapia e havia a mistura de sentimentos negativos sobre mim. Eu me sentia acometido por uma injustiça, aprisionado pela falta de rotina do momento devido à minha movimentação precária e começei a alimentar uma bactéria pior da que permitiu a lesão neurológica se fez instalar em mim; o rancor pela vida.

 Essa bactéria começou a me incomodar , pertubava o meu sono e não permitia enxergar em um espaço de 24 horas muitas possibilidades de celebrar o que fosse. A família , namoricos e visitas não travaram o avanço do meu problema com o mundo, pois eu fui um imã para o pessimismo .Durante muito tempo o sorriso deu lugar à expressão séria, com o olhar fixo a cuspir ódio e a testa franzida. É o traquejo mais óbvio das pessoas descontentes com o mundo . Eu acatei esse comportamento sem ter noção das consequências de tal prática.

 Hoje , consigo progressos na fisioterapia.  A bactéria danosa está sendo combatida , eu preciso me atentar à outra bactéria. Eu com certeza a alimentei com o vírus insano de algumas atitudes desmedidas. Isso sempre existiu em em mim e deve ser atacado com anticorpos capazes de me alimentarem naturalmente.A começar pelo compromisso em substituir a vocação ao radicalismo, buscar o riso e tentar inspirar poesia de ares poluídos pela ira.

 Buscar o caminho do centro e da ponderação talvez seja mais difícil do que andar para mim. No entanto , são dois objetivos nobres, merecedores de uma  maneira de atuação que saiba equilibrar o rigor quando ele for exigido e a beleza que se tratando de matéria de vida, nenhuma bactéria de você se agoniza.

 Um abraço PARATODOS,

 André Nóbrega.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Crônica- Ansiedade inválida

 Além do direito de voltar a andar nas ruas com andador e cadeira de rodas , poder sair um pouco mais de casa ,  conquistar uma relativa independência , ainda falta muita coisa.

 Quando se amplia um universo pequeno , o instinto de expandir a sua visão e reação das coisas do mundo é um impulso natural .Principalmente , quando o seu mundo recente se aproxima das sensações com as quais você sempre presenciou de forma natural. Andar ,por exemplo. A minha lesão permite uma evolução nesse sentido, por ser tratar de uma agressão sofrida pelo cortéx cerebral , uma especíe de maestro do corpo humano .Através do cortéx cerebral algumas funções vitais do organismo , tais como as ligadas ao movimento e a  fala, são reguladas. O meu 'maestro' vem sendo estimulado desde junho de 2009 à custa de acompanhamento fonoaudiológo , muita fisioterapia e uma reeducação diária minha. No meu caso, a capacidade motora e da fala do corpo permite essa evolução, cabe a mim estimular isso. Se por estou trilhando um bom caminho na reabilitação , me adequar com segurança à passagem do pequeno mundo em que vivi às possibilidades que despontam firmes, ainda falta muita coisa.

 Falta me conscientizar dos limites da minha condição atual . O que posso realizar atualmente sabendo que não tenho a fragilidade de dois anos atrás , nem a consistência ao andar de quando tinha 25 anos . Talvez, faltem certezas relativas ao quanto eu posso evoluir. Em relação ao controle da permanente ansiedade, ainda falta muita coisa.

 Não me nego a cumprir rotinas , estou voltando a trabalhar e encontrar as pessoas. A reeducação inclui identicar os fatores e as causas mais tortuosas a lhe acompanharem. Eu controlo a ansiedade contrapondo uma análise dos fatos e uma ação de vivacidade imediata. Somos seres pensantes e interessantes porque podemos ocupar muitos lugares e papéis distintos. Em matéria de reconhecimento ao aprendizado permitido a partir da minha lesão , ainda falta muita coisa . E ter a consciência desse processo me preenche de alegrias.

Eu sigo na luta , ansioso e perseverante.

Um abraço PARATODOS!!

André Nóbrega.

sábado, 30 de julho de 2011

Crônica-A solidão bem acompanhada

  Cada pessoa tem o seu mecanismo de lutar contra a solidão. Muitas vezes ,estar só significa entender os mecanismos que atrapalham o seu momento de vida e descobrir maneiras possíveis de superar(ou simplemente pensar sobre)os problemas vivenciados por você. É aquela solidão consentida, desejada a fim de escolher os passos a serem tomados a médio e  a  curto prazo. Eu me tornei cadeirante há dois anos, em decorrência de uma lesão neurológica rara , a chamda Síndrome de Miller Fisher. Uma doença que ataca o cortéx cerebral e compromete os seus movimentos , a sua fala ,assim como a coordenação motora fina. O efeito sobre o corpo é devastador. Em quase um mês internado eu perdi 19 kg, praticamente não mexia o corpo da cabeça para baixo e perdi o volume e a legibilidade da voz.Eu dependia dos outros para fazer tudo.Precisa ser carregado para tomar banho, não conseguia comer sozinho e tive que usar fraldas geriátricas aos 30 anos.Passados dois anos da experiência ,eu utilizo bem o andador,mais ou menos a cadeira de rodas quando vou às ruas, vou ao banheiro sozinho e consigo falar com razoável fluência. A reabilitação vai bem, obrigado.Sinto falta é de passar um tempo maior a sós comigo mesmo.

 É comovente notar o zelo familiar exercido. A experiência de ser refém do próprio corpo, sem ter capacidade de realizar as funções básicas só é suavizada pelo amor de quem está perto, predisposto a lhe afagar através de gestos, atitudes e carinho a sua invalidez momentânea. Eu passei de um grau total de dependência aos estágio em que encontro hoje pelo apoio dos familiares(estão aí incluídos amigos e amigas do peito) , a minha entrega buscando a reabilitação e através da prática da escrita. Eu só pude me dedicar ao blog a partir do momento em que alcancei o direito de poder ficar sozinho em minha casa.Ir ao banheiro ,me vestir e fazer a barba são tarefas possíveis desde o final do ano passado, pelo menos.

  Exercer o diálogo interior é fundamental para estabelecer os erros e acertos da minha reabilitação física ,pessoal e profissional . Devido à lesão por mim sofrida, permitir uma evolução é palpável e tenho conseguido avanços. Atualmente , sinto falta da diálogo interior mantido enquanto vou às ruas. Não toco bem a cadeira de rodas, não posso pensar na vida quando me locomo.A agitação das ruas não permite. Por enquanto , tudo requer a atenção máxima, mas sei se tratar de uma fase de transição essa ansiedade sofrida. O meu ponto escolhido para pensar na vida é um point bem legal ,bem frequentado e passível de fazer e criar as meditações literárias, sentimentais e desaforadas necessárias. Trata-se do Bar Rebouças.

 Conquistado o direito de ir ao Bar Rebouças, quero acessar o hábito de frequentar cinemas , ruas e festas com maior desenvoltura. A fim de exercer isso, o fortalecimento físico e a malícia de andar nas ruas está sendo  levado em conta e exercido.

 Eu escrevo hoje a vocês porque a minha cadeira de rodas está com defeito, certamente teria saído num sábado a noite bonito como o que a Cidade Maravilhosa nos premia hoje. Pelo simples fato de eu poder optar entre ver TV ,navegar na internet e dormir na hora que quiser, comprova todos os ganhos aquiridos durante a minha trajetória.Haverá outros sábados ,cinemas , idas à festas e ,é claro, momentos para poder escrever.O ato da escrita é uma solidão consciente e a leitura do que produzo faz ecoar uma solidão bem acompanhada. Consegui o direito de ficar em casa , a minha cadeira está precisando de reparos e eu me tranquilizo.Logo , logo eu voltarei às ruas.Sem pressa e a menor intenção de pensar na vida em um sábado à noite.

 Um abraço PARATODOS!

 André Nóbrega.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Poema - O princípio mais óbvio




O princípio mais óbvio

Soa compreensivo o recado de adeus.
O que se perdeu em motivos tão fáceis.
Os cacos dão colorido à perda , eu odiando
A sua alegria, sepultando os teus rastros.
São táteis os medos, percebo e me esquivo
Das perguntas.Elas vem juntas da verdade
Simples.A ação que credita mágoa ao princípio
Mais óbvio. Quanto mais convoco explicações
à síntese dos fatos, mais provoco medidas
E inalações de ódio diárias. Essa doença
se equipara ao artefato mais difícil e humano.
Ela se apresenta ao repetir para mim que amá-la
É o início do plano perfeito ,leito de uma maldição
evocada pela sua celebrada ausência. É o engano
cujo luto consagra e a memória cinzenta confunde.
Não desfruto do real ,apenas consumo o ideal
que renda histórias prontas para serem escritas,
vendidas  para antenas carentes. Perfeita e estreita
a minha covardia.Caso não se consuma a gangrena
do luto a minha bravura será colheita a renegar vida
e vomitar poesia.

RIO, 26 DE JULHO DE 2011.

Crônica- As ruas do Rio ,o escritório que eu participo de cadeira

   A cultura de rua no Rio de Janeiro é um patrimônio rico , vinculado ao nosso clima e a tendência que a cidade convoca os seus habitantes a descobrirem a cidade. Um dia de sol límpido não melhora o mundo, mas nos faz dar uma espiada ao redor.Circular e permitir o encontro com pessoas a quem você não programou se deparar , mas que a partir do reencontro surjam possibilidades para um chope, um cinema e um convite de trabalho até.Em decorrência da minha lesão neurológica os meus movimentos básicos ficaram comprometidos, assim como a fala e o acesso à cultura de rua do Rio.

  Durante o meu primeiro verão após a lesão a troca da praia pela fisioterapia foi compensadora do ponto de vista clínico.O meu suor possibilitou melhoras consideráveis , a dedicação foi extrema. Não poder circular pelas ruas onde moro, falar sobre futebol com conhecidos, cumprimentar o jornaleiro e ir à padaria eram possibilidades distantes .Passar um verão no Rio de Janeiro sem vivê-lo como você o viveu em trinta anos de vida foi necessário. Eu saía somente para ir à clínica de fisioterapia. O meu erro foi viver exclusivamente para a reabilitação , deixar de lado os chamados da vida.

 Por um tempo, eu deixei de frequentar a rua por cagaço. Quando eu passei a apresentar condições para interagir socialmente foi chato explicar a quem encontrasse os fatos ocorridos.Chato porque a minha voz lembrava a do Pato Donald e ao relatar a experiência eu tornava a presenciar alguns sentimentos . A família foi a minha base, a minha bússula , o meu mapa permanente a espantar qualquer ameaça de precipício.Eu devo a outros três fatores a ajudar em meu processo de ressocialização.Vou citá-los por ordem cronológica: passar a frequentar o Bar Rebouças , ser paciente da Rede Sarah e conhecer o Projeto PRAIA PARA TODOS.

  Eu passei a frequentar o Bar Rebouças pela simpatia e humanidade de uma grande amiga minha .Foi durante a Copa do Mundo de 2010. Eu estava deslocado ,olhando aquela galera bonita farreando e achando que aquilo não era comigo.Na  época , eu ainda necessitava dos cuidados de um assistente de enfermagem para sair, e a  minha amiga sentiu a minha vontade de participar daquela celebração e , assim, fui apresentado ao Bar Rebouças.Se você achar exagerado o relato , confira você  mesmo indo ao Bar.Pode me chamar , inclusive. Uma vez iniciada a reabilitação social , tive facilitada a minha reabilitação integral pela Rede Sarah.

  Ao conhecer o trabalho , a infraestrutura e , principalmente, a paixão das pessoas da Rede Sarah , eu redobrei a minha intensidade visando a reabilitação e adicionei largas doses de entusiasmo ao meu caminho.Em dois meses , eu realizei o máximo de atividades ao meu alcance. Além da fisioterapia, tive aulas de como tocar a cadeira, fonoaudiologia, natação,oficina de artes, expressão corporal e fui apresentado ao GIP,o grupo de terapia intensiva destinado às pessoas com lesão adquirida e pessoas portadoras de necessidades congênitas.O grupo é admistrado por duas brilhantes profissionais; uma pedagoga e uma psicóloga.Duas mulheres fortes ,capazes de admistrarem as questões expostas pelo grupo.Todos saiam transformados de alguma maneira com as discussões evocadas.Nesse espaço falamos sobre as dificuldades do dia a dia e de como poderíamos viver respeitando à realidade de cada um.Eu aprendi demais com o GIP, eu me fortaleço quando volto ao Sarah a fim de fazer exames e rever os amigos feitos na instituição.

 O projeto PRAIA PARA TODOS foi duplamente importante.Por possibilitar o meu reencontro com o mar e , mais ainda , conhecer pessoas bem humoradas,conscientes e que me obrigaram a abandonar o estigma cultivado por mim de cadeirante coitadinho.

  Hoje , eu começo a redescobrir as ruas. A maneira de me locomover mudou radicalmente, o jeito de observar e falar com as pessoas, também. O apelo das ruas é irresistível .Graças ao suporte dado pela Rede Sarah, o ineterrupto afago familiar ,dos amigos e amigos que me dão muita força para usufruir o bar, marcar um cinema e discutir futebol, eu ganho fôlego para percorrer os mares que virão.

  Um abraço PARATODOS!!

  André Nóbrega.

domingo, 24 de julho de 2011

Crônica- A alegria em manifesto

  A reação de pessoas em um ambiente fechado é acolhedora, por dirigir a nossa energia e bem estar a quem escolhermos sem grande interferência externa. Na crônica anterior eu me referi ao desconforto por mim sentido nas festas nas quais eu encontrei pessoas próximas e conscientes da minha condição de deficiência adquirida .Pessoas próximas que não tinham me visto numa cadeira de rodas, ainda.Mencionei também a falta de habilidade pessoal em lidar com tais situações. Eu soube ontem a respeito de uma manifestação da classe cinematográfica do Rio de Janeiro contra o veto imposto ao filme sérvio ''Serbian film''. O absurdo da ação de censura como foi colocada ao filme citado reuniu mais de 50 pessoas num sábado de inverno .Isso foi realizado no cinema Odeon, no dia 23 de julho de 2011.Entre as pessoas presentes eu estava lá para me sintonizar e interagir com alguns amigos envolvidos na questão. Era vital sentir a energia boa da galera do cinema, ser visto por quem enxerga o mundo de uma maneira bem original.

  Pouco a pouco ,a calçada em frente ao Odeon foi enchendo de gente .As pessoas foram se aproximando e participando do propósito da ação. Eu não estava inteirado sobre o assunto, os argumentos colocados tornavam óbvios a insensatez da censura covarde , imposta a um filme censurado em meio a realização de um festival em andamento. Eu ouvia a tudo interessado, sendo absorvido pelo ideal mais renovador com o qual me deparei a partir da lesão por mim sofrida; o de poder reagir de maneira enérgica e estudada diante de uma  adversidade.

  Estavam todos ali numa noite de sábado à noite.Estavam ali cientes da ação danosa promovida ao filme e da repercussão que tal atitude poderia causar ao se abrir esse precedente vergonhoso.Eu sabia um pouco sobre a censura, passei a saber um pouco mais. As pessoas que encontrei me chamaram para o bar ao lado. Eu fui e confesso a alegria em poder testemunhar as colocações de pessoas articuladas, intensas e capazes de transformarem a noite de inverno em uma arena acolhedora, preocupada com a grave situação deflagrada e pensando em conjunto para o ato de reação. Foi muito bom presenciar aquela conflagração de pensamentos vivos e circulantes, dando ao protesto a condição propícia para se fomentar experiências. O cinema obriga você a se socializar , é um dos baratos da arte coletiva.Falei pouco e desde cedo tomei para a minha antena o poder de condensar o máximo de observações possíveis.Mas era uma mesa de bar,mesmo assim ,o tom informal não atrapalhou o caráter pontual dos propósitos da ação.

 Eu saí fortalecido pela alegria pacífica e atuante,enérgica e bem humorada da noite. Devo ter sido alvo de alguns olhares de pena, mas eles estiveram imunizados pela corrente das pessoas a quem não via há muito tempo.Professores e amigos , papos super agradáveis e ações gentis de novos amigos fizeram da noite de inverno o manifesto sincero da prática gentil.

 O pleito é justo e não desviarei das possibilidades de reação solidária .Mas depois de ontem à noite, eu voltei para minha casa refeito com o poder encontrado nas ações em grupo bem organizadas.

 Um abraço PARATODOS!

 André Nóbrega. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Crônica- A adaptação às festas

  Em uma festa são diversos os sentimentos presenciados. Os encontros amorosos podendo se confirmar , o desejo de rever amigos de longa data e a simples ação de desafogar o peso do dia a dia. São apenas algumas das possibilidades encontradas, três possibilidades comuns e com as quais as pessoas costumam se deparar com facilidade. Eu nunca fui chegado às festas, para mim o motivo da festa precisava atender a uma demanda interna minha , bem específica e rara . As festas do meu círculo íntimo de amizades constituíam uma excessão.Devido a essa dificuldade minha, aproveitei menos do que podia das festas de que participei. Com a lesão por mim sofrida houve uma mudança ; as festas de amigos , onde encontraria pessoas informadas sobre a minha condição ,mas sem terem me visto na cadeira de rodas, passaram a constituir momentos desagradáveis.

  Quando a junção de pessoas do seu círculo de amizades , a quem você considera e valoriza a companhia não lhe faz bem é porque algo está muito errado. Ao se levar em conta a minha tendência antissocial , o pensamento automático seja o vinculado  a de que a falta de traquejo social esteja agravada  pela minha deficiência adquirida .Não é verdade, eu passei a valorizar mais as festividades agora , priorizo os eventos nos quais as chances de encontrar alguém do tempo de quando eu andava são menores.

  É impossível as pessoas não realizarem a comparação de como você era antes e como está agora. Em uma festa cuja memória da sua vivência como alguém que andava é forte, o desconforto é garantido. As pessoas não querem lhe botar para baixo.Elas geralmente são solícitas, querem lhe ver bem ,estar contigo e celebrar ao seu lado. Sem ninguém saber eu travo uma batalha. A memória de quem eu era fisicamente está sendo adaptada ao que eu sou agora .Eu só consigo lembrar de como eu agia e reagia com as pessoas e como eu ajo agora.

 O propósito da festa não é esse,é claro. A celebração deve ser buscada sempre, só é necessário dar tempo a tal readaptação afetiva. Passei a valorizar mais as festas agora , não abro mão do convívio das pessoas que gosto e a melhor maneira de vê-las juntas é  em uma festa. A auto aceitação minha é fator essencial ao processo, pois não deixarei de comparecer ás festas e se tenho coragem de andar nas ruas esburacadas do Rio de Janeiro, receber o carinho das pessoas que amo não será ruim .Som na caixa DJ!!!

 Um abraço PARATODOS!

 André Nóbrega.

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Poema - Difícil sorriso


Difícil sorriso


Eu queria o esforço desse sorriso
Sem estudo ou fosso . Você viria
A mim sedenta, medindo só
a nosso alegria ,ela alimenta
o teu impreciso andar.
Quando melhor estiveres ,meus
Pedidos estarão perdidos ao
Tom célebre da voz oscilante
Medindo nesse instante as
Incríveis mulheres em febre.
És música suprema,ás das noites
De fogo em nós agora distantes.
Eu precisava desse sorriso agora
Dessa jóia confiante,confidente
das melhores histórias. Por hora
um abraço a tornaria apta ,crente
da nossa memória.Se assim
demoras a encurtar os espaços
comigo .Logo ,o que a maltrata
passará pela porta, unindo o
fogo com falta, deixando-a
disposta ao erro.Agora o perigo
é me sorrir lástimas, qualquer
letra ruim de vida em desgraça.
Demos graça ao esplendor
A meta de servir gozo ás
Próximas horas. Dessa ação
Sorrirá-lhe a pele.
O esforço em evitar o riso
Afeta a tua manhã, mas
Amaciará a nossa tarde.
Contabilizo rompantes
Frescuras e ataques.
Para lhe fazer sorrir
Irei além da minha boa
E mal intencionada vontade .

RIO,20 DE JULHO DE 2011.

terça-feira, 19 de julho de 2011

Poema - As palavras que matam


As palavras que matam



No instante de uma morte anunciada.
Quando a despedida do cadáver
Questiona qual o mote próximo.
O óbito aí tem a ver com estrada.
Planejada a ação do assassino
A moral atropela o juízo.O propósito
Faz do breu uma aquarela possível.
Na mente criminosa é permitido orar
Pela família da vítima.O tiro não destina
Somente sangue ao alvo , também aproxima
O carrasco das horas mais críticas
do desespero .Por fora da expressão
mal encarada de quem sacrifica mora alguém
que reivindica descanso. Uma vez manso
o corpo na caçada, se melhora a mira
a memória inacessível de quem atira.
A quem não usa armas de fogo
As palavras são arco ,flecha e fogo
Que não queima alvos escolhidos,
Computa estragos ao próximo.Queira
Ou não , muitos mal entendidos
são estendidos a condição de penalidade
drástica, na margem entre o rancor e a mágoa.
Sem armas na mão , buscamos no convívio
Um estado de amor que traga munição
Para alimentar vínculos , educar os vícios
E como quem meça aos segredos íntimos
A pedra como trunfo,sejamos mudos ao vínculo
Forte do ataque .Anos de convivência para atribuir
Ás palavras, a boa sorte do carinho disponível e ao
Silêncio a trégua viável de uma convivência
Atenta aos detalhes possíveis .Motivos de conferirem
Ás bocas projéteis de pesares capazes de municiarem
Aos pares os piores instintos sanguinários.
Sejamos intensos,estamos propensos ao exagero.
Com tudo de vida , trocas e experiências acaloradas
A saliva não pode ser o formulário que evoca
a prática da ofensa. Para a paixão da ida, ser solidário
ao silêncio é fundamental.Isso valida a intenção da volta
acrescida do renovado respeito.Sejamos corajosos,então
o espaço transformará o estado de guerra numa espera
visando a reconciliação. Sem planos, transformamos as
atitudes gentis em atos contínuos. E as palavras assim
atuarão como elo , não sendo cacos.

RIO,19 DE JULHO DE 2011.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Crônica- As pedras portuguesas. As minhas montanhas russas.

  A sensações vividas nas montanhas russas nos parques de diversão, eu presencio em maior grau quando preciso passar por uma calçada com pedras portuguesas.  A diferença se concentra na emoção desnecessária da qual qualquer cadeirante passa ao conduzir a sua cadeira de rodas pelo Rio de Janeiro quando avista a combinação alvinegra como sendo o seu obstáculo.É um frio na barriga que não buscamos e poderia muito bem ser evitado.

  Para atravessar uma calçada com pedras portuguesas é necessário se levar em conta o  estado de conservação desse tipo frequente de pavimento encontrado na Cidade Maravilhosa. A conservação é precária, e o fato de haver árvores centenárias em muitos trechos das calçadas em que transito é outro agravante. A raiz das àrvores seculares intefere na gradação das calçadas , tornando-as sujeitas aos declives e ao efeito de montanha russa por mim citado.

   É chover no molhado falar sobre a vocação turística do Rio, quando o desreipeito aos cadeirantes , andantes e postulantes a fixarem residência por aqui é uma prática cotidiana. Dá notícia falar sobre a linha 4 do metrô e o caixa dois do Maracanã. São fatos de suma importância, poderia ser colocada na pauta a falta de obras de infraestrutura visando os jogos Paraolímpicos de 2016.

   Pedras portuguesas ,árvores centenárias sem ter nada como valor prático, má vontade dos políticos...Enfrentar as montanhas russas para a locomoção é uma condição do cadeirante, viver sob o efeito de uma roleta russa, não.

   Um abraço PARATODOS!

   André Nóbrega.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Poema - Pergunte ao próximo


Pergunte ao próximo


Pergunte ao pó
pelo próximo passo
o elo de sótão
de poeiras.
Desnude o ser só
E celebre sexta feiras
O contato, o singelo
Adeus que concebe
Garrafas inteiras.
Pergunte aos seus botões
Pelas vergonhas
Passageiras. Conceba a
Graça disposta em fileiras
De abraços a chegar.
Perceba o viver,pois
basta de perguntar só.
Arraste para a fronteira
O ilógico,transmute o
Inevitável com fósforo
De teimosia.Quando o pó
Requerer companhia
Que beira outra linha.
Deixemos estável
Cada alegria presente.
Sofremos muito pelo
Próximos instantes.
O máximo fica para
Depois.Não pergunto
Nem aspiro ser trágico
ao destino.Por ser indefinido
Perguntar talvez canse
ao menino quando o que é
 mágico passa a ser rotina.
 E o pó ,a paz, a ponte são símbolos
 Princípios de uma evolução contínua.

RIO,12 DE JULHO DE 2011.

Recado aos inválidos existenciais

 Sabe o que mais enche o meu saco atualmente?O julgamento silencioso das pessoas, aquele olhar convocando pena , do qual você sente o pensamento das pessoas ,mas não estimula a verbalização a fim de evitar aborrecimentos. Os pensamentos têm cheiro, cor e ao virem acompanhados por um olhar de pena me brocham,sinceramente.

 Entendo a dificuldade das pessoas em considerarem o cadeirante como pessoa integral, o julgamento  qualificando a cadeira como cruz, e o fato da de rodas chamar primeiro a atenção nos lugares novos, para em seguida, as pessoas olharem para você. Entendo isso,mas não atendo a essa denominação que desqualifica a pessoa e não respondo a tais situações com bom humor, mesmo reconhecendo a eficácia dessa atitude.

 Pior do que lidar com a própria deficiência é suportar a ignorância em movimento, circulante em murmúrios, risos dissimulados e olhares de censor das pessoas.Sempre há pessoas a quem eu não conheço e dispostas a me ajudarem.Agradeço as muitas que encontrei e as pessoas com as quais me depararei com esssa atitude afirmativa,nobre e fundamental.Isso me predispõe a conviver contra os inválidos existenciais,os portadores de miopia afetiva e outras das quais eu sei não ser o único alvo.

 Agradeço aos familiares, amigos e amigas que valorizam o meu suor.

 Um abraço PARATODOS!!

  André Nóbrega.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Comentário sobre o filme ''Meia noite em Paris''



Meia noite em Paris 


 A retratação de um tempo passado encontra na literatura um campo mais fértil para produzir um resultado eficiente .Em um filme, a transposição das situações ocorridas no passado precisa estar afinada ás demarcações de figurino ,a maneira como a fotografia privilegiará os cenários a serem mostrados. O escritor se vale mais do seu recurso enquanto manipulador da realidade mostrada.Não há a necessidade de uma reconstituição rigorosa,tudo irá depender da capacidade vinda da imaginação do autor em tirar do  contexto  histórico escolhido um caminho capaz de seduzir o leitor.No cinema a imagem deflagra as escolhas demarcadas pelo diretor capazes de seduzirem o espectador.Pode se optar pelo rigor na elaboração da direção de arte  e também de como a linguagem contida na capacidade técnica do cineasta irá traduzir os fatos de uma época essenciais à história narrada.No filme‘’Meia noite em Paris’’, o diretor Woody Allen está empenhado em questionar a nostalgia dos tempos não vividos,as eras cujos grandes feitos artísticos são supervalorizados em detrimento aos fatos históricos registrados.A opção do realizador nova-iorquino projeta uma Paris idealizada,a Cidade da Luz dos anos 20,povoada por figuras fundamentais em suas áreas de atuação  artísticas.Porém,a narrativa pela qual tais personagens transitam é pobre.
  Ao transmitir a um jovem e bem sucedido roteirista americano de Hollywood o protagonismo do filme, se transfere a visão do turista capaz de embarcar em aventuras visando se inspirar. Tal predisposição em busca do novo facilita o choque com os fatos presenciados pelo personagem, em vias de se casar com uma mulher fútil, rica e dominadora. A antítese do modelo de mulher parisiense buscado pelo confuso homem.
  Tal composição monótona só é quebrada com uma viagem ao tempo,a perambulação pela Paris dos anos 20.Os seus anfitriões são personalidades como F.Scott Fitzgerald,Ernest Hemingway e Gertrudre Stein.É uma idéia brilhante,mas mal executada.Todas as  figuras históricas remetem a um arquétipo do artista exótico,maluco e genial.É mais palpável ao cineasta mostrar  Zelda Fitzgerald como uma neurótica e o Hemingway como um beberrão ultra masculinizado e marrento do que elaborar um perfil psicológico mais caprichado.Isso nada tem a ver com o tempo de exposição conferido a cada personagem e sim pela opção destinada a vincular pintores do porte de Salvador Dalí e Pablo Picasso como figuras  exclusivamente excêntricas .O clichê foi sempre buscado,interessava era mostrar o convívio do americano do séc. XXI com os malucos beleza da década de 20.
Tecnicamente, a fotografia não capturou as muitas angulações de uma cidade vocacionada a deter variedades de registro. A direção de arte é tímida ao se considerar os apelos contidos na ambientação das cenas reproduzindo os cafés e casas da época retradatada. De nada adianta um elenco talentoso frente a uma situação assim verificada.
 O filme ‘’Meia noite em Paris’’ me fez encher de sentimentos variados em relação à próxima obra de Woody Allen. Um dos sentimentos mais fortes é que ele desista de filmar no Rio de Janeiro.   

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Crônica-Encontro no café

  A tarde estava fria demais para ser comum. A constatação não era medida pela temperatura, começou a ser definida a quebra dos meus hábitos rotineiros quando eu avistei da esquina o meu boteco fechado. Além de estar num outono disfarçado de inverno, calhava daquela tarde ser feriado e o meu boteco tem um grande movimento à noite , principalmente na noites que adentravam a madrugada antes de um feriado.Para não perder a viagem eu toquei a minha cadeira de rodas para o café ao lado do meu escritório.

 O local estava habitado , sem estar lotado. Todo o clima da rua conferia serenidade. O movimento de carros estava abaixo do normal , as buzinas não eram sequer ouvidas e muitas famílias passeavam , alheias a qualquer possibilidade de estresse. Talvez, essa impressão tenha ficado mais nítida assim que fiz o meu pedido e avistei a harmonia de um casal de jovens e sua filha, um tesouro de no máximo três anos. A distância da minha mesa não permitiria ouvir a conversa dos pais, mesmo porque as reinações da filha logo me encantaram.

   A menina não estava vestida de fada , não brincava com a sua comida , muito menos fazia barulho.Acreditem, parecia ser uma criança de quase três anos calma. Bastou chegar uma senhora levando para passear o seu poodle,cuja vestimenta  remetia mais a de uma paquita do que uma cadelinha. Não acredito que houvesse um conhecimento prévio por parte do entusiasmado casal e a senhora.Os cumprimentos formais indicavam uma simpatia de etiqueta , enquanto a afinidade entre a criança e a cachorra ,agora começando a saltar , foi instantânea. 

 Os carinhos trocados entre a menina e o animalzinho latindo mudaram o status do refúgio do café para abrigar uma farra. Durou o pouco o momento , a garotinha levou alguns festejos e uma lambida da poodle paquita. . As poucas pessoas ao redor riram da cena.A mãe delicadamente colocou a filha no colo. A senhora entendeu o código , polidamente se despediu e seguiu o seu caminho . A cachorra obedeceu  o comando e interrompeu o latido. Achei isso ótimo , pois aquele ruído me fazia sentir saudades das buzinas ensandecidas. A linda garotinha distribuía sorrisos e , vívida, foi atrás do cão guia.Zelosa a mãe foi atrás de sua filha. Eu fiquei nostálgico de mim mesmo.

  Não foram os passos faceiros da linda menina que remeteram à minha imobilidade física , e sim o de não registar os fatos como aquela criatura de quase três anos lançava diante do seu universo.Um olhar franco, incapaz de comparar 'uma' poodle a uma paquita e buscando o novo. A nostalgia deu lugar a um sensação mais palpável ; a do frio prenunciando uma noite gélida.

 Tratei de pagar a minha conta revestido de disposição , agradecido por testemunhar essa ação e tramando a minha volta ao boteco , mesmo computando o buzinaço como fator integrante ao lugar. Bom mesmo era poder transitar em realidades diferentes e complementares na mesma rua.Fui feliz para casa.

Um abraço PARATODOS!

André Nóbrega.

terça-feira, 21 de junho de 2011

Crônica- Novas estradas

 O processo de reabilitação para um cadeirante não é medido somente pela quantidade de suor gasto, o esforço empenhado que visa um recondicionamento físico. Todo o sacrifício será insuficiente se não vier acompanhado por um esforço permanente de autocontrole. Não é uma regra , um conselho, apenas um relato comum ao meu processo de integração frente às ocorrências cotidianas.

  Às vezes, todos os componentes incluídos em um dia apontam condições favoráveis. Os sinais do tráfego parecem mais demorados e atravessar a rua fica mais fácil, prazeroso até. As pessoas na rua lhe sorriem mais, elas notam em você uma abertura para uma alegria sincera, predisposta à troca e você acolhe essa energia projetando maravilhas para o resto do dia , da semana. Neste embalo, os buracos e terrenos irregulares da rua são insuficientes para atrapalharem a sua força, a incomparável vontade de superação da qual você, acreditando ser um super-herói, embarca cheio de confiança. Basta um simples lance de escadas impedindo o super-homem de chegar ao destino desejado para a realidade tomar forma, como se a dificuldade em realizar coisas 'fáceis' nos tornasse improdutivos, estéreis e inválidos. Muitas vezes fica difícil ao próprio cadeirante não se sentir assim.

 Mas o dia não estava bom? As coisas não corriam bem, seguindo um percurso favorável? Sim,sim. As pequenas pedras no sapato são as que mais incomodam. Sempre haverá algum fato lembrando a limitação sujeita a qualquer portador de deficiência adquirida.Trocar lâmpadas?Pegar o livro no alto da instante?São atividades que não requerem uma habilidade especial.Devido a isso, haverá um imã remetendo o quanto aquelas ações eram feitas por você facilmente, sem hesitação alguma. E agora , mané??

 Enche o saco a obrigação de servimos de exemplo, provarmos o quanto somos guerreiros, quando no fundo o desejo por reconhecimento profissional, falar besteiras e promover trocas de afeto(yes, nós temos saliências!) nos é comum a qualquer cidadão andante.

 Consciente da reabilitação física e dos sacrifícios incluídos ,o difícil é operar uma reabilitação existencial. Fazer a CPI das questões que lhe empatam , sem esquecer das alegrias e dádivas presentes no caminho de qualquer pessoa.

 É fundamental promover a construção de novas estradas capazes de ultrapassarem as escadas. Exercício do braço, do agir e de assumir quem nos tornaremos. Muito difícil , porém as licitações para obras estão a pleno vapor.

  Um abraço PARATODOS!

  André Nóbrega.