sábado, 23 de abril de 2011

O aniversário da lesão.

  Uma pessoa com uma lesão séria adquirida ,tem na data do fato do acidente gerador à sua condição um aniversário incômodo. Um dia com aquela carga forte o suficiente para marcá-lo com múltiplos significados . O vazio parece ser alimentado na medida em que o tal ‘’aniversário’’ se aproxima, principalmente quando a atitude adotada é a de não pensar no assunto. Difícil encontrar um poder de sugestão e controle da mente proporcionais à ruptura sofrida.Não  é a maturação da pessoa para com o trauma, passa também por uma memória corporal presente.Aquela vivência anterior disposta a lhe cutucar, e assim, o aniversário da lesão sofrida nunca será um dia comum.
  A data vem como uma coceira distante, perceptível ao ponto de não identificar na desmesura de um dia o agrupamento com tantos sentimentos desiguais. Cada portador de necessidade especial  trabalha em seu íntimo os mecanismos de reação .Eu constatei relatos pertinentes, corajosos e de grande valor a respeito do dia da lesão por eles sofrida. A constatação dos fatos descritos é tocante , os detalhes dos aconcontecimentos ,tão palpáveis quanto nítidos, não poderiam deixar de atribuir um peso à data.
 Confrontar uma data fúnebre não significa esquecer a ação célebre da retomada. Não é um dia para ser desprezado, conquanto que o impulso fundamental da reconstrução estiver alinhado ao dia x, do mês y, daquele ano em particular.
 A coceira me incomoda bastante. Eu luto, negocio para ela não me asfixiar. Afinal, é um dia presente em meu calendário , com um peso neste ano ,por enquanto, menor do que o do ano passado . Será uma boa briga, no entanto,eu estou longe de largar o osso.
Um abraço a todos.
André Nóbrega.

sábado, 16 de abril de 2011

O percurso com percalços do cadeirante.

  Eu tenho menos de dois anos de lesão , estou somente agora organizando os termos da minha nova realidade. Fazer uma faxina inteior requer o encontro com verdades incisivamente cruas, trata-se de um processo ao qual recorro para prosseguir. Não é alimentar as suas qualidades ou percorrer o pavio das ilusões, não mesmo. É muito mais difícil ter consciência do seu lado menos nobre ,covarde e mesquinho a disputar uma brecha em qualquer dia a dia. Há na cadeira de rodas um poderoso imã atraindo a atenção das pessoas , isso me socorreu em muitos momentos de aperto. Nas possibilidades em que uma queda na rua parecia inevitável a aparição de uma ajuda pontual e anônima foi valiosa.

Não tenho vocação para discorrer sobre as propriedades da cadeira enquanto objeto , dispenso agora uma psicanagem de botique para simplificar o assunto. Entretanto a cadeira possuírá um apelo retumbante em um cotidiano operado pela necessidade da instantaneidade. Ao atravessar um simples sinal é preciso muito preparo físico e uma concentração extrema para se chegar ao outro lado da rua. São as capacidades do corpo, da percepção externa funcionando em sinal de alerta constante. É preciso atuar em um ordenamento menos tenso, conciliando os obstáculos com uma condição de humanidade. O preparo para completar os movimentos com funcionalidade na rua são desgatantes. Eu sou um novato, ainda não peguei a malícia , a disposição e a coragem para encarar as ruas eficazmente. Em minha etapa atual eu cedo facilmente às tensões.

Um meio termo precisa ser incorporado  , os parâmetros das comparações feitas com o que já realizou anteriormente nunca será desconectado. O reencontro com uma pessoa conhecida , a visualização de uma foto anterior à lesão e mesmo alguns comentários puxam o tapete tecido para o fortalecimento contínuo , interpelando contra o esforço da própria faxina interior um despejo de dor.

 Nem tudo precisa ser desértico , a alegria fecunda em situações inesperadas, o exercío do humor nunca foi tão requisitado. Eu ainda não encontrei um tempo capaz de dialogar com tantas necessidades imediatas.Rir e participar mais da vida tem sido um desafio igual ao de assumir as implicações encontradas por um cadeirante. Conhecer o lado sabotador latente sem botar as desculpas e os erros em cima da cadeira. A cadeira de rodas foi construída para facilitar vidas, estimular a progressão dinâmica das situações com o maior grau de lucidez possível. É uma parada dura, não precisa ser uma cruz!

Eu tenho muita fé em Deus,uma convição maciça e reparadora ao esforço diário, além da retribuição dos familiares e pessoas próximas com um apego muito forte às reivenções de vida.  As dificuldades convivem em quase todas as minhas ações, mas a tensão para andar na rua diminuirá aos poucos e assim atravessarei mais do que os buracos no asfalto. Toda essa garimpagem de sentimentos espera ser colocada em um benefício maior; permitir aos cadeirantes uma conexão com suas âncoras interiores. A partir do que eu vivo, acesso e consigo transmitir.

Não será fácil, devido a todos os percalços, mas o percurso pedregoso também me enche de uma briosa disposição.

Um abraço .

André Nóbrega.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Poema- Instituição querida.

 Instituição querida


Conte-me segredos, caso queiras
Asneiras da TV , o descaso com a fome
Que some quando queremos.
Conte-me sobre o anseio do trabalho,
Quem é fulano de tal para indagar
O seu nome.E atento ao seus planos
Não haverá benefício tão real e humano.
Quando o encanto some com pás
necessárias o amor ressurge, indagando
os princípios da convivência .
Comprarás livros, roupas e a minha chatice.
Os motivos para discutir partirão
das mesmas bocas abertas à saliência.
Sigamos assim com o frio na espinha
aberto à saudade.A tosca verdade
da razão.Os instantes contigo vividos
ao limite e construindo um viver maduro.
Não menos obscuro e assim permita
a essa índole do sentimento o desquite
com a fantasia.Sou todo ouvidos, fortaleço
os meus ombros rijos acolhendo gritos.
Mereço partilha com risos, estou atento
aos tombos.Não ao fomento da nostalgia
Dispenso agora impessoalidades, esposa.
Vamos dormir na variedade do presente.
A demora repousa em refletir a ação repleta
Da força que nos surpreende. Eu lavo a louça
e faço o mercado acompanhando
os seus estados.Se os motivos
a me convocar são os da moça insegura
ou do crivo das contas está fixado
em nosso contrato a força seguinte.
Ela reinventa lugares para todas
as fases tenazes a fim de nos
fortalecerem.Agora, diga-me você...
Há como desligar a TV
deixando avistar nesse corpo
tesão ,loucura, prudência e atitude
capazes de pavimentar com paixão
o esforço exigido pelo casamento?
Não, tudo confunde-se ao compromisso firmado.
Sendo firme o intuito do reflorestamento
Quando muito conselhos, terapia de casal.
Agora tire essa cara, interrompa a leitura,mulher
E vamos logo tirar o nosso atraso. 


RIO,13 DE ABRIL DE 2011.


terça-feira, 12 de abril de 2011

Poema- O pé das ruínas.


O pé das ruínas

Armada e cinza, tua boca ainda busca
 céu por ser tão suja.Pela sede
do ego ascendo apenas quando
esfrego fel e por aí me nego, sem escolha...
Nessa procura insolente com gozo gasto
 O tal sentimento é rápido , único e rasteiro.
Morrem os laços no papel, a pronúncia
Para além da sua vontade.Somente
A fraqueza nos mantém .Máfia e Igreja
sem castidade. Para suspender tantas leis
 o murmúrio de mulher sábia , estraga
com saias minhas chamadas sem suspender
o nosso vínculo. Pode porque és praga
o pátio mais sutil das entradas humanas.
 Ágil o ódio nas mantas desse protocolo cínico.
Quando aterras o meu ninho no contato
Sem cheiro , porém íntimo da espera.
Espalhando o suor no caminho
A falta de ritmo narra o seu eco por aí.
Quando atravesso nossas datas
só,cedendo uma visão congelada
Empresto-lhe voz,alma , poemas ao
Pé das ruínas .O remédio é espelhar
teimosia nas companhias de meninas
ausentes quando engesso em ostras
a manifestação da alegria em vidas por aí .
Prazer sem me conhecer ,até erradicar
o protesto de tantos conflitos.
Apto á minha vida está o vazio
A sofreguidão com a qual transpiro
Possibilidades estéreis. Por isso
O atrito entre nossas realidades
De paraísos não impedem a cor
Da fúria ou pormenores.Acode solta
a escritura do não medido em vivências
 melhores.Acordes das nossas músicas
sem partitura ou guia. De acordo
com o mundo somos lunáticos sem valia prática.
Diante da via crúcis asmática estaremos firmes
Por aí.Com o adeus em dia, horizontes
 sem métricas ou recomeço.Poesia inútil
aprisiona o valor expresso e remete
á poucos instantes o gesso alucinante
 sem futuro, fedido e imaturo por aí
Separando o homem do amante.Dando tiros
No escuro com o ímpeto constante, gratuito até.
Do discurso sem casa porque não passa do muro
A fé dos motivos do amor .Escorregadio
Movediço e descoordenado eu prossigo.
Vivo é do despejo calculado de não lhe encontrar
por aí...      

RIO, 12 DE ABRIL DE 2011.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Funções de acessibilidade no boteco!!

  A filosofia dos bares é preciosa a quem estiver disposto a desbravá-la. Eu herdei do meu pai o gosto pela atmosfera nesse local. Não foi nenhuma imposição formal, eu sempre gostei de acompanhá-lo nas incurssões dele. Eu mantinha desde muito garoto uma relação respeitosa pelos assuntos discutidos ,  era solicitado só para contar piadas infames e , sem saber , me tomava de respeito pela palavra daquelas pessoas cada vez mais próximas. Eu renovava o meu repertório de piadas com os amigos do meu pai e as testava na escola, com moderado sucesso. O manancial de histórias contidos nos frequentadores de um bar me municiou de curiosidade frente à discussões improváveis ,além de um profundo respeito pela cirrculução da boa conversa .Não virei humorista, sou abstêmio . no entanto continuo me mantendo convicto dos poderes reunidos num local onde reuniões de amigos, casos de amor e ódio são alimentados , renovados e adiados. Podemos reunir tais elementos numa peça teatral, mas sem a naturalidade ,o encanto natural promovidos pelo bar.

 O nivelamento cultural do frequentador do bar pode ser medido parcialmente em uma roda de conversa querendo ser séria, assim como o resultado da malhação da garota passeando com o cachorro avaliado e o problema de saúde do garçom debatido . A condição é não exigir profundidade em um tema.A instantaneidade é um dos atrativos do local. Em vinte segundos tudo pode mudar,principalmente se a garota com o cachorro volta sorrindo do passeio na hora do garçom perde tempo demasiado reclamando do resfriado. A sede depõe contra essa nobre categoria ,por isso cederá espaço para a reposição dos copos e corpos se avolumando em um espaço contíguo.

 Tudo é tão urgente na condição efêmera de um bar ou boteco, onde o palco cativa os habitantes de tal universo tomando-os exultantes em clima de  construção contínua.Talvez isso seja tão poderoso enquanto instituição do díalogo, da dica do excelente filme visto , da música composta. No entanto ,de nada vale um desabrochar poético ás vésperas de um FLA X FLU. Ou se alguém conseguiu mais do que o sorriso da moça do cachorro,para a partir daí se dispor a inventar os detalhes, generosamente.

 Não me compete propagar o realismo dos relatos por mim ouvidos.Tudo é uma questão de foco e de fígado. Eu aprendi mais ouvindo do que reagindo aos fatos de bar, pois bastou eu frequentar os bares sozinho para notar a falta de graça nas piadas feitas , trazidas em casa. A graça é compartilhar das vivências com o efeito de propiciarem à bebida, à apreciação dos tira gostos e a da fofoca uma pessoalidade hospitaleira. Isso reconvoca a sua presença.

  Há sempre de se louvar o cenário pródigo em reunir discussões acolaradas sobre futebol ,soluções ovacionadas para se salvar o mundo e capazes de fazer do seu frequentador um artista ou uma caricatura, tudo é uma questão de momento do copo e fomento da alma.

  Eu bebo dessa fonte há algum tempo, na base da coca cola e do silêncio eu fui capturado por um  boteco. Desse espaço eu acesso muitas vivências e elas não precisam necessariamente serem minhas.Elas necessitam transitar nas histórias de cada litro até eu poder captá-las.

  Muitas pessoas a traduzem o bairro em que moram através do ''estudo'' concentrado ao botequim vizinho. Se não for antropológico, será uma experiência engraçada, portanto rica.

 E  por falar nisso ,uma coca cola gelada agora seria uma ótima...

quarta-feira, 30 de março de 2011

Poema-Porta dourada

Porta dourada


A sua mão me foge porque prediz luto.
Súbito o consolo emerge do adeus
Nos lampejos ilógicos que eu odeio admitir
O óbvio escolheu o desabafo mudo
Do mais temeroso mártir.
Ter-lhe célebre,teria certa uma porta dourada
De cela trancada decerto era de se presumir
Com respaldos confessos a pressa aterrar
O sonho vingado por uma memória insaciada.

RIO,18 DE NOVEMBRO DE 2010.

terça-feira, 29 de março de 2011

A minha primeira vez após a lesão!

Sexo envolve tabu.Essa ligação se modifica,transfigura e acontece na proporção de todos nós .Quero dizer, o assunto é espinhoso.Para um cadeirante , a sexualidade passa pela redefinição do corpo e da identidade.Eu tive a minha lesão com trinta anos,numa idade em que se pressupõe uma quilometragem extensa por parte dos homens.Eu não a tinha,não a tenho.Por motivos,complexos,cagaços mil...
  O período logo após a lesão decepciona mesmo quem quer estar junto a você, lhe abraçar. As pessoas tentam lhe animar carregando afagos, mas quando as visitas se despedem e a noite cai você hospeda o filme de um passado recente ,com vigor .Dormir é muito complicado.
 Eu organizei alguns jantares em casa,menos oficiosos e mais íntimos.Nessa época o contato com a rua era feito apenas para fazer fisioterapia.Uma amiga veio a dois desses jantares e a energia dela trazia um toque de Sherazade ,dos momentos aos quais eu completava as histórias divertidas dela esquecendo a minha imobilidade.Mesmo com o conforto,segurança eu fugia do mundo e acolhi a  cadeira de rodas como sendo a minha melhor amiga.Ao final de um dos jantares,minha amiga disse :
-Faço questão de retribuir a gentileza.Na próxima o jantar é lá em casa.-Eu sorri,confundindo o convite com caridade.
No dia marcado eu estava lá,o prédio era excelente em termos de acessibilidade.Estava nervoso ,mas não com o jantar .Era uma fatalidade, como se  eu estivesse ali para provar que era invisível.Apenas dar um passeio condicionado pela vergonha dos olhares a mim dirigidos.Baixa auto estima e castração desapareceram quando vi o sorriso encantador dela e um vestido simples,mas fixado em minha memória para se tornar inesquecível.
 O jantar começou arraigado por formalidades,eu não me permitia relaxar.A coordenação motora falha não me deixava beber,pegar talhares. A minha amiga me ajudou,trazendo o resto da lasanha congelada na minha boca.Rimos.
 A descontração se prolongou ao ponto de sacanearmos os programas de TV,eu relembrar o meu talento para fazê-la rir.Olhá-la rir me fortalecia.Ela enrubesceu e os  movimentos seguintes ativaram carícias,prolongaram até uma interrupção.
-Eu preciso ligar para casa,avisar a minha mãe.
-Você pode dormir aqui.
  A adaptação ao sexo limita as posições,mas não inibe descobertas.O meu olhar,tato incidiram caminhos pródigos.Não havia poesia,nem a necessidade da performance apimentada,rica e gozosa .Houve acima de tudo, vida.
No dia seguinte ,já no táxi a caminho de casa percebi o quanto me tolhi de prazeres em trinta dos meus comportados anos.Eu cravava os destinos amorosos na insegurança como um castigo.Agora eu queria aproveitar muito mais,me recusando a sair da condição de figurante e fortalecido para prosseguir

segunda-feira, 28 de março de 2011

Poema-Umbigo

Umbigo

Umbigo
Artigo de luxo e indefinido.
Vem como um fumo ruim
Sem companhia.Vem
Com o costume da alegria
Sendo o sentimento sem fim.
Se quiseres calma unânime
Fique colhendo vaidades
ignore as tsunamis que irradiam
ação,desespero  e medo.
Pois ,cedo sua memória ministra
Outro desastre.Com brilho na TV
E alto contraste, o seu problema
É o que predomina.Com base
Na sua vida á mercê do degradante
O bidê de marfim não separa cheiro.
No máximo ,eleva aos bueiros à matéria
Ruim da sua consciência sem zelo.
-Primeiro o meu.Já entendi.
 Aja sem erros para o mundo
A névoa não perdura para os cegos.
Absurdo é considerar o outro
Quando a base de tudo fixa-se no ego.
RIO,28 DE MARÇO DE 2011.
 

domingo, 27 de março de 2011

Poema~Jogo do certo ou errado

Jogo do certo e do errado

Está errada a cara de anjo
Em carnes cujo arranjo
Depõem marcadas
Na entrega um vôo
Sem brilho,sujo.
Está errado o filho
Revoltado.Pois o trilho
Quando é deslocado
Joga aos pais anzóis
Para o desespero.
Está errado quem concilia
Dor para ocupar desapego.
Quem vangloria a própria cor
E paga cedo á família
A glória medida em cotas
Mesquinhas.
Está errado quem comporta
Uma verdade tida como certa
e não conserta o que há de
concreto por medo do incerto.
Mas sejamos honestos...
Há cupins roendo os objetos
Mosquitos espalhando
Febre,contendo o grito
A quem não percebe
Que o errado busca
Alvejar o fio da sanidade.
Tudo é questão de qual lado
Invade a ilusão em busca
Do real e aponta os desvios
Para uma questão de certo
Ou errado.

RIO,27 DE MARÇO DE 2011.

sábado, 26 de março de 2011

QUANDO O CADEIRANTE É O AGRESSOR!!

  Assim como não aconselho ao cadeirante vestir a carapuça de vítima, tornar-se detentor de  uma postura exageradamente agressiva pode ser uma faca de dois gumes. A intolerância está disseminada , o portador de deficiência uma adquirida tem motivos para resignar-se e promover reações notórias e que vão resultar em melhorias efetivas . O PROJETO PRAIA PARA TODOS , que tem como mote principal proporcionar o reencontro dos cadeirantes e portatodores de outras deficiências com o mar prova isso. O exemplo dado pelo pessoal ilustra a ação eficiente e mobilizadora que multiplica a esperança, esse gérmen precioso de ações transformadoras. Eu apóío totalmente a iniciativa, ao mesmo tempo que reconheço faltar em mim o equilíbrio para prosseguir o meu caminho
.
  É bom enfatizar que nem todo cadeirante é destinado  a realizar grandes feitos. O exercício cotidiano nos obriga a superações, mesmo com a cultura da acessibilidadade sendo aos poucos alimentada. A garra para encarar o dia a dia transita com a raiva de viver em um mundo que precisa ser adaptado .Essa linha tênue entre a disposição para encarar o viver mais dificultado e a indignação para interagimos exige uma faxina para não perdemos o tom.  Estamos fragilizados, portanto agir com prudência passa a ser essencial.

 Há diversas maneiras de descontarmos nossa raiva Praticando esportes, escrevendo, despejando raiva e entrega numa relação amorosa. Eu noto nos cadeirantes um sentimento de injustiça se abater logo após o trauma.  Aconteceu comigo e com algumas outras pessoas que conheci. A indagação se faz faz necessária, principalmente quando as inciativas de ajuda não atingem o objetivo principal:VOLTAR A ANDAR.

 A revolta é justificável , mas até certo ponto. A explosão de alguém que se julga ser acometido de uma injustiça vem para castrar sorrisos, congelar abraços .O cadeirante tem tantos motivos para rebelar-se de uma forma suicida, quanto o de ganhar fôlego para nadar, convicto das marés tenebrosas , principalmente as de dentro de si. Não use a cadeira como escudo para os seus recalques, medos e limitações. Agir como um  franco atirador baseado num sentimento carregado de auto piedade asfixia você e a quem estiver perto. E só revela covardia, além de pedir novos  pretextos para se culpar.

 Estando em uma condição especial,as tentações de ceder à raiva só piorarão a invalidez individual.

Por isso,  eu tentarei um equilíbrio ,mesmo sendo temperamental  e raivoso.Caso contrário eu adaptarei,  cantando para mim mesmo aquela canção do comercial do molho Pomarola. A do elefantinho verde:

Um cadeirante mala incomoda muita gente,
dois cadeirantes malas incomodam muito mais,
três cadeirantes malas incomodam,incomodam,incomodam
muito mais.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Depene qualquer tipo de pena!!

Se você é cadeirante,o olhar das pessoas é influenciado por um magnetismo.Esse magnetismo atrai tanto um olhar de pena das pessoas,quanto o olhar e a ação solidária das pessoas em situações inesperadas.Ao andar nas ruas o cadeirante não se depara ''apenas'' com condições precárias de locomoção,mas também a de cair na armadilha da invisibilidade. Seria ,tomando as palavras de Vinícius de Moraes na letra de'' A  Marcha da Quarta Feira de Cinzas ,como se nós andássemos por ''uma gente que nem se vê".com o o diferencial que o cadeirante não quer ser visto.
 Sentir pena de si mesmo qualquer pessoa já sentiu ou sentirá. O momento pós lesão é traumático pois o cadeirante está tomado pela raiva,medos e tristezas,  num mundo onde tudo remete ao movimento.Você se encontra imobilizado, principalmente pelas perspectivas futuras.
 O período de adaptação sugere reformas e reparos em casa.Isso é essencial. Eu sugiro ao cadeirante uma reinvenção.É muito mais tortuoso, mas posso asssegurar que, estando em vias desse processo, é recompensador. Não se trata de receita de bolo, nem  de se alimentar de utopias.
 As pessoas debocham de quem tem um penteado diferente e a cadeira de rodas chama a atenção, mas quem se encontra nela pode conversar e se descontrair também.E um(a) cadeirante bem humurado(a) tende a causar espanto porque muitos pensam que  estamos embalados sob o signo da melancolia eterna.O bom é que com isso podemos sempre surpreender com muito mais eficiência.
 O cadeirante não precisa(nem pode) fazer stand up comedy, mas deve prosseguir sabendo que a vida realmente ficou muito,mas muito mais difícil.No entanto, nada nos obriga a fechar a cara, sermos coitadinhos ou invisíveis.

Um abraço a todos.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Homenagem a um grande ator

Assim que eu comecei a fazer fisioterapia,havia um senhor que me despertava um reconhecimento.Não pela situação de nossas mazelas,estávamos numa clínica de recuperação neurolológica.Havia muitos pesares ,expectativas compartilhadas.O que me despertou a atenção foi o enfraquecimento de um ator famoso,a palidez da face ainda célebre para todos na clínica de reabilitação.

O resultado está aqui...

Chama pelo riso

  Diziam ser um homem conhecido,majestoso no ato da transformação.Seu papel atual não traduz vigor.O olhar hipnotizado pelo marasmo,o corpo ancorado demonstra o tempo em repouso.O local onde o encontro é um oásis circundado por sombras áridas.Nessa atmosfera conflitante meu personagem se destaca. Nomeá-lo talvez seja perigoso.A situação em que se encontra pode ser a que muitos chamam de ponto final.
    Esse cara me fortalece,a luta sã se esquiva diante dos seus gritos.Rememorar o passado sucumbe á lógica da movimentação lenta com a qual o seu corpo enfraquecido se esquiva.O silêncio a ele imposto troveja relâmpagos de lucidez ao ambiente.Impossível conter o choro a quem sabiamente nos conduziu ao riso.
   Ainda há suor,o esforço dele não produz cansaço,tampouco lágrimas.Chega-se ao limiar da ação sem nexo e da exposição da qual o valoroso homem esmorece ,sem notar que seu viver é fundamental.É um exemplo que fere qualquer livre arbítrio.Esse conflito reduz a espécie humana a migalhas.
 Firmada a incerteza da volta é fundamental acolher esse princípio de força.Por que no anúncio da partida se aceita o luto tão facilmente?O homem que vejo adormecido reconhece a vida pelo nosso afeto.É cordial,sutil e gargalha com a possibilidade  de transcender ,a qualidade rara dos gênios .
  No vínculo com a eternidade o intervalo divino é sábio.Repartir o silêncio com um verdadeiro artista da alma é privilégio para poucos, pois condiciona uma vocação primária em reconhecer nossa validade.Milagre que multiplica nossa capacidade de sorrir e não freia nossa valia diante do improvável.
 Eu reconheço a jovialidade nos gestos estáticos de um humorista nato.A tragédia tem milhares de atos ,no entanto bastam alguns segundos diante desse homem de idade definida e alcance incomensurável para entender a aparente falta de lógica do destino.Pois estáticos nunca estaremos ,quem conta é um mito que diante dos seus males,me encanta.

ANDRÉ NÓBREGA

Poema Outras estadas

Outras estadas


Espera-se de uma miragem,ardor.
Toda cor recitada no ato que abrace
Melhor a lembrança.
As histórias dos feitos interagem
Querendo outras estadas.
Fatos apenas demarcam
Silêncio.O prazer mais atento
Encontra-se no não vivido.
Uma estrada onde se confia
uma senha para as possibilidades.
O saber de sonhar empenha
na centelha ora céu,ora cria
 mais devaneio no concreto.
Aquele sentir dos espelhos..
Com freios ,mas sem gramática
É o objeto de argüir do papel
as virtudes clássicas captadas.
Reinventar-se é estar perto
Dos aspectos reais
sem os quais a asa não voa.
A visão do incompleto gravita
Nas causas mais fúteis.
A perfeição agrada,não ecoa
a íntima fúria necessária.
Imprimindo regras e prazos
Aos sonhos,as entregas
Dos sentidos terão o valor
Comprado por censuras sem data
Ou diárias camufladas no esforço.
O esboço medíocre das verdades
 Aptas a entender.Os limites
São marchas trôpegas em vias
cada vez mais arbitrárias.

RIO,06 DE MARÇO DE 2011.
 

O taxista swingueiro

  Eu contarei um fato isolado mencionando uma classe de trabalhadores a quem sou muito gratopela gentileza e sem a qual a disponibilidade eu não transitaria pelo ruas do Rio de Janeiro .Eis aqui a história do taxista swingueiro .
  Durante um ano eu fiz fisioterapia cuja locomoção era sempre feita via táxi.Da Barra até o Jardim Botânico.Eu não podia andar sozinho,estando em recuperação e a fisioterapia era exaustiva.Eu voltava dormindo quando retornava a minha casa.Foi necessária a assistência de um acompanhante,chamado Alessandro.Um cara jovem,também rubro negro e com o humor bem parecido com o meu.
  Pois bem,para realizar o mesmo trajeto,durante os mesmos dias da semana e batendo no mesmo horário,usar uma cooperativa de táxi era fundamental.Em mais um dia de ralação,ao final da sessão de fisioterapia e com o joelho extirpado de dor,surge o taxista.Ele já estava pronto para eu e o acompanhante embarcarmos.O cara era forte,da maromba e chegou cheio de moral:
-Quer ajuda aí,chefe?Eu aceitei a ajuda,mas pensei que bom mesmo seria se os deuses do trânsito permitissem uma volta ao aconchego do lar rápida e tranqüila.Isso aconteceria se durante a metade do trajeto o pacato motorista não viesse com esse papo;
-Eu vi você ali ralando na fisioterapia.É isso aí.Não pode dar mole não.
-Sim,mas a fisioterapia cansa muito.
-Eu sou professor de Educação Física,sei como é.
Mais uma viagem tranqüila.O corpo cansado não impede uma boa conversa.O que não aconteceu.
-Maneira a sua recuperação.Eu vi que você fica em pé.Tu vai ao cinema ,tu sai numa boa?
-Estou retomando ,voltando aos poucos.
A conversa estava ficando chata.Alessandro apenas observava.No momento em que os deuses do trânsito se revoltaram o taxista me indaga.Com a rapidez com a qual o táxi deveria ter:
-Mas e aí,o amiguinho aí embaixo ainda funciona bem?

Eu respondi no susto:
-As duas cabeças funcionam muito bem.
O Alessandro explodiu numa gargalhada,Eu encarei aquilo como um sinal.
-Aí ,Alessandro .O Flamengo joga hoje que horas?
Durante alguns minutos o papo sobre futebol vingou e o maníaco do táxi colaborou ficando quieto,o trânsito não.Estava cada vez mais lento.
-Vocês estão indo para o Jardim Botânico.É verdade que tem uma casa de swing lá?
-Não seii,cara.Tem termas .
-Você já foi lá?

Eu assenti com a cabeça,já nervoso.

-Mas tu já foi à casa de swing?

-Não fui...Não pratico esportes radicais.
Um silêncio perturbador preencheu o táxi.
-Cara,eu me lembrei que eu preciso comprar uma parada.É só deixar a gente na Gávea.-Eu temi pelas palavras que poderiam ser ditas a seguir.
-Tá beleza!
O taxista parecia chateado e ajudou no desembarque sem manifestar raiva,ou,graças ao meu Santo Padroeiro,tentar um movimento brusco quando me ajudou a subir na rua.
-Valeu, garotada .Força aí.Quero te ver forte.
Após o táxi se perder no trânsito,Alessandro já estava gargalhando,novamente.
-André,conquistando corações...
-Vamos esperar para outro táxi...
-Ficou com medo,cara?
-Não.é só o tempo dele chegar na casa de swingue.
Dessa vez o riso compartilhado chamou a atenção dos transeuntes do Baixo Gávea.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Poema -Orquidário de cactos

Orquidário de cactos


Chore suas lástimas.mas baixo
Pois essa etapa pobre lhe rega
 um orquidário de cactos.
Brigue pelos espaços ,salário
E a consagração externa.
Se o tema diário são espelhos
Ou doação de esperma,seus atos
São psicanálise de bar misturada
Com pentelhos. 
Combine o ar com desacertos invisíveis.
Uma história dada a sempre ganhar.
Divide o enterro da dúvida .Isso muda
O jeito de jogar.Muda o tempero  
da crise mais certa ao leito da ajuda.
Não confunda paz,nem guerra
Quando se espera dos anos
Uma sombra encostada
E sóbria na imobilidade óbvia
Na ousadia incapaz.
Se tem um fruto,não furte manias
Em pazes com a pressa.
A ousadia imune á vias
Impulsivas,o engessa.
Presa ao pescoço
É a apatia dividida
sem esforço aos seus
mínimos passos.
Quem irradia abismos
Com o que perdeu
Enterra o próprio gozo.
No íntimo em partes totais
Somos tolos ao não nos
Lançarmos.
No princípio do seu ideal
somos todos encaixe
na felicidade torta
que só conforta
se nos amarmos.

RIO,23 DE MARÇO DE 2011.

Dicas para um cadeirante se dar bem em um cruzeiro marítimo!

    Eu sei o que você está pensando.A cadeira de rodas pode ter muitas utilidades.Tais como:portar copos ,bandejas enquanto outras pessoas se divertem em um cruzeiro.A cadeira de rodas poderia auxiliar num jogo de cartas,pois a mesma bandeja,se for colocada em cima da cadeira como garagem de drinques,transportaria cartas .Numa boa.
    A minha intenção não é essa.Nem busco aqui propagandear esse ou aquele cruzeiro,embora haja grande variedade de copos,tamanhos e corpos nesse segmento,atualmente.Vou relatar aqui os procedimentos para um cadeirante aproveitar a brisa marítima com tanta partilha de gente disposta a se divertir .
    Existem sim cabines adaptadas para cadeirantes para esse tipo de viagem.Eu fiquei admirado com a estrutura do banheiro,que segue um padrão internacional,com alto grau de segurança.
    Mas vamos ao que interessa.Se você é um jovem cadeirante,as pessoas tendem a olhar para você com pena.Num cruzeiro ,isso se multiplica.Meu conselho é;use isso a seu favor.O olhar lançado pode ser respondido de diversas formas.
   Num cruzeiro o melhor lugar para um cadeirante paquerar é perto dos elevadores.Sempre haverá uma alma abnegada disposta a lhe ajudar .Caberá a você selecionar ,mas é bom manter o espírito gentil e espirituoso.Se o papinho colar,você pede a dama para ajudar você a achar a cabine.Vale lembrar que as numerações dos navios são esquisitas e o cadeirante também se confunde.Com as cabines e as muchachas.
  Estabeleça um vínculo com esta pessoa,marque um encontro e procure saber a cabine dela.Em caso de naufrágio,repita a tática do elevador ,mas em outro andar e em um horário diferente.Matador de aluguel não pega bem em lugar nenhum e persista marujo,a sua princesa vai aparecer.

  A maior limitação talvez provenha do próprio cadeirante,eu me trancafiei nos dois primeiros dias de viagem.Tudo na imensidão daquele cruzeiro me remetia à vida e eu me excluìa desse ''processo'' por não conseguir acompanhar aquele  frenesi.Demorou até eu me dar conta de que não estava  a bordo do TITANIC.Aos poucos comecei a observar,a interagir com as pessoas.Só demorou até eu ter descoberto a tática do elevador,mas cada um se entretém como lhe convém à alma.

Fica aqui a dica.

Um abraço a todos,

André Nóbrega.